Em declarações à Agência Lusa na Cidade da Praia, durante uma deslocação de trabalho ao arquipélago, Lucília Figueira salientou que nos cinco países lusófonos africanos (PALOP) e em Timor-Leste há centenas de milhares de pessoas "tocadas" pela luta contra a pobreza desencadeada a partir de 1998 pelo agora Ministério da Solidariedade Social, da Família e da Criança (MSSFC) de Portugal.
Aos 68 anos, Lucília Figueira continua a fazer milhares de quilómetros por ano em deslocações aos países onde estão em curso centenas de projectos e garante que a "cor" do governo em Portugal pouco importa.
A todos os governantes que tutelam ou tutelaram a pasta, do PS à coligação PSD/PP, tece elogios, porque o que interessa é a eficácia dos projectos,"ir junto dos mais pobres para ajudar as pessoas a ter o mínimo de condições", sempre de "uma forma pragmática". "Temos muito bons resultados e estamos a crescer na área da cooperação e a abranger muitos projectos e muita gente - só em Cabo Verde são já milhares, chegando às centenas de milhares no conjunto dos países abrangidos - na área da luta contra a pobreza e protecção social", afirma.
Um dos "exemplos de sucesso" é a atribuição de micro-crédito, com taxas de juros muito baixas, entre zero e cinco por cento, às pessoas mais carenciadas de forma a que estas possam criar a sua actividade económica.
A taxa de juro aplicada, mesmo mínima, "é importante para que haja uma mentalização de forma a, posteriormente, quando estas pessoas já estiverem em condições de recorrer à banca comercial, lidem melhor com as regras do sector", adianta Lucília Figueira.
Um caso que exemplifica toda a estratégia do MSSFC é o apoio a uma unidade de produção de queijo na Ilha do Fogo, em São Filipe, Cabo Verde, ou, nas múltiplas latitudes dos investimentos, na melhoria habitacional, electricidade ou o saneamento básico, a alfabetização ou a criação de pequenas unidades fabris, enquanto componentes essenciais de luta contra a pobreza.
Em relação ao apoio à unidade de produção de queijo do Fogo, explica, para clarificar o método de actuação, que foi algo que surgiu face à necessidade óbvia de gerar rendimentos para uma comunidade significativa.
No terreno, os técnicos do MSSFC encontraram-se com os trabalhadores agro-pecuários de São Filipe, que vão agora ver financiado o equipamento para a produção de queijo, embalagem e com uma marca, a recolha do leite, com uma viatura e... a aquisição de 50 cabras e dois bodes para garantir o leite necessário.
Cerca de 9,5 milhões de euros em 2005, e uma verba igual nos anos de 2003 e 2004, foram ou vão ser gastos, "até ao último tostão", para projectos em todos os países abrangidos.
"Mas o dinheiro é gerido por entidades locais, como organizações não governamentais (ONG), embora "sempre em sintonia com os governos dos respectivos países através dos ministérios homólogos", explica.
Para além do impacte que os investimentos têm no terreno, junto das pessoas, Lucília Figueira realça ainda o "reconhecimento factual do esforço de Portugal nesta matéria", porque as pessoas com quem trabalha, "sabem que Portugal está a atravessar problemas, que os recursos são escassos, mas mantém o empenho na ajuda".
Para que a eficácia seja um facto no esforço em curso, "o rigor nas contas é fundamental", diz, sustentando que, para isso, "são feitas auditorias exaustivas a cada projecto".
Quando se lida com a área da luta contra a pobreza num continente como África, "onde pobreza é o que mais há, é preciso ser- se pragmático", diz Lucília Figueira, que desde 1987 lida com questões da cooperação multilateral, embora só desde 1998 nesta dimensão específica.
Aquilo que nós assumimos tem que ser bem feito, envolvendo as comunidades, como uma gota de azeite na água, tem que se ir espalhando para envolver o maior número de famílias", exemplifica.
Resolver os problemas todos é ideia que não faz parte do vocabulário de Lucília Figueira, mas, garante como exemplo do pragmatismo "essencial" nestas latitudes, que "aqueles que se enfrentam é para resolver bem".
Outro exemplo do pragmatismo é o facto dos projectos passarem para o terreno "sem grandes estudos", porque a pobreza está à vista e quando alguém pergunta se já foi feito este estudo ou aquele, a resposta é sempre
"as pessoas têm fome hoje e não amanhã".
"No entanto, a questão da continuidade é fundamental. Acompanhamos todos os projectos e só os largamos quando estes têm pernas para andar sozinhos", assegura do alto da sua larga experiência."
Lucília Figueira acompanha a generalidade dos projectos, fazendo anualmente duas a três viagens aos sete países englobados, mas diz que já não vai continuar por muito mais tempo.
No entanto, um dos desejos que admite ser "difícil" mas que acha "possível" concretizar é "encontrar uma forma de colocar os países onde incide a cooperação do ministério a colaborarem na execução de projectos abrangentes", como a lembrar que as fronteiras não fazem parte da luta contra a pobreza.
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